A vida em 2031: uma mensagem de quem já está lá

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Caro cidadão do mundo em 2021, espero que esteja bem.

Me convidaram para escrever um texto sobre a década que terminava. Decidi escrever uma mensagem daqui, de 2031, para as pessoas que estavam começando o ano de 2021, que agora nos parece tão distante, e contar um pouco sobre o que as esperava. Hoje, aqui no futuro, é um dia especial: estou saindo de casa para uma reunião presencial. Escrevo este texto de dentro de um veículo autônomo – e elétrico, claro – que chamei para me levar a um encontro com alguns executivos “old school”, que gostam de falar sobre o futuro do jeito que sempre fazíamos no passado: ao vivo, em um mesmo espaço físico.

Reuniões assim são cada vez mais raras, já que a maior parte do contato de trabalho se dá de forma remota, usando ferramentas de realidade virtual e realidade aumentada que criam experiências indistinguíveis dos encontros físicos. Essas tecnologias que fazem com que os Zooms, Google Meets e Microsoft Teams da vida pareçam peças de museu, realmente libertaram as pessoas dos escritórios do passado e criaram possibilidades infinitas de colaboração, que chamamos de “Anywhere Office”– o escritório que existe em qualquer lugar. Isso não mudou apenas os espaços e as relações de trabalho, mas transformou as cidades.

Em 2031 para boa parte das pessoas encontros presenciais são reservados aos amigos e família.

Com essa possibilidade de trabalhar – e viver – melhor longe dos centros urbanos, a dinâmica da urbanização se transformou, fazendo as grandes cidades ficarem menos populosas e virando o mercado imobiliário de cabeça para baixo. Foi um êxodo para longe dos grandes centros que começou neste ano em que vocês estão e não parou mais. As cidades grandes se tornaram menos densas e a vida profissional se espalhou por lugares cada vez mais inesperados.

Aliás, veículos elétricos e autônomos cresceram muito mais rápido do que as previsões mais ousadas e, como consequência, hoje temos um ar mais limpo, muito menos trânsito e quase nenhum acidente. Em 2031 cargas e pessoas são transportadas por terra, água e ar, em meios de transporte cada vez mais eficientes e independentes. Quem em 2021 imaginaria o prazer que é viajar no silêncio de um avião elétrico? Até mesmo a classe econômica se torna mais suportável…

Os carros voadores, que antes eram só ficção científica, há muito tempo se tornaram uma visão tão comum quanto os drones de entrega que povoam os nossos céus. O lado ruim desse novo mundo é que tirar carteira de motorista ficou quase impossível e carro com motor a combustão está virando coisa de colecionador. Posso confirmar para vocês da década passada que a inteligência artificial realmente cumpriu sua promessa e está presente em quase todos os aspectos da nossa vida. Aliás, este texto foi revisado pelo meu assistente virtual, que atualmente tem a aparência – e o senso de humor – do ator Robin Williams.

Talvez a I.A. ainda não tenha chegado no nível da inteligência humana – os especialistas dizem que isso ainda deve demorar mais 5 ou 10 anos – mas confesso que é difícil saber isso quando estamos lidando com uma. Hoje as inteligências artificiais pilotam nossos veículos, gerenciam nossas fábricas e fazendas, escrevem roteiros e produzem séries de TV e filmes, compõem música, gerenciam cozinhas, fazem compras para nós, administram edifícios e até mesmo cidades, cuidam da vida financeira de pessoas e de empresas, auxiliam cientistas em suas pesquisas, cuidam do marketing das empresas, controlam nossos lares, cuidam da nossa saúde, monitoram o clima e muito mais. Nos dias de hoje cada vez menos pessoas trabalham na indústria e na agricultura. A automação e o aperfeiçoamento das técnicas de produção – incluindo a engenharia genética na agricultura – fizeram com que a nossa eficiência e produtividade aumentassem de forma sem precedentes na história moderna. Na indústria esse processo foi ainda mais radical, a Inteligência Artificial, a automação, a internet das coisas e a impressão 3D reduziram expressivamente a necessidade da mão-de-obra humana. Hoje temos um número cada vez maior de fábricas que se auto gerenciam, cuidando de forma quase autônoma de todos os aspectos da produção, desde a montagem até a própria logística.

Um resultado indesejável – e esperado – foi que nossa falta de planejamento fez com que o enorme impacto nos empregos que desapareceram não fosse compensado pelas novas oportunidades criadas. Falhamos em não preparar a população e ajudá-la a desenvolver as habilidades exigidas pela Nova Economia. No começo da década passada se calculava que a automação seria capaz de eliminar 40% das horas trabalhadas. Foi bem mais do que isso. A principal consequência foi que mais de 30% da população economicamente ativa se tornou produtivamente obsoleta e inadequada, impossível de se encaixar no novo cenário.

Novas pandemias por vir…

Ah, também tivemos mais duas grandes pandemias biológicas e uma terrível pandemia tecnológica. As pandemias biológicas nos mostraram que os seres humanos têm muita dificuldade para aprender com as experiências anteriores. E as consequências só não foram piores porque a tecnologia e a colaboração dentro da comunidade científica, que começou a se manifestar nos idos de 2020, ajudaram a compensar nossa incapacidade de nos prepararmos para o inevitável.

Já a pandemia tecnológica foi muito pior. Um vírus de computador criado por um grupo de hackers a partir do código de uma arma cibernética desenvolvida pelos EUA e Israel infectou 90% da internet antes de ser isolado e neutralizado. Por quase 4 dias o planeta parou: bancos, aeroportos, sistemas de distribuição de energia, hospitais, cidades, países inteiros. O que se seguiu foi uma recessão mundial que custou trilhões de dólares e ainda hoje sentimos seu efeito. Assim como no caso das pandemias biológicas, nós sabíamos que isso podia acontecer, mas quase nada foi feito antes…Tem coisas que parecem que não mudam nunca.

Já faz tempo que os combustíveis fósseis deixaram de ser a fonte de energia mais importante da nossa sociedade. Depois do pico de demanda em 2019, sua retração foi acelerada pelo barateamento da geração de energias baseada em fontes renováveis, como energia solar, eólica e geotérmica e o desenvolvimento de tecnologias revolucionárias como a fusão nuclear. As fontes de energia chamadas “sujas”, como o petróleo e o carvão, ainda estão presentes em 2031 – e em um mundo cheio de contrastes elas ainda vão estar presentes por um bom tempo – mas se tornam cada vez menos atraentes para os investidores e para uma sociedade que vem sofrendo as consequências do aumento da temperatura que ainda está acontecendo no nosso planeta.

Hotéis em órbita e vida em marte

Essas transformações, se não pararam as mudanças climáticas, pelo menos ajudaram a mostrar que existe uma saída. Mas não dependemos mais do nosso planeta para garantir a perpetuação da espécie humana. A última década escancarou o espaço para a exploração humana. Hoje turistas compram pacotes em doze vezes sem juros para se hospedar nos hotéis em órbita (a vista é deslumbrante, me disseram). Também temos uma base permanente na Lua e uma próspera colônia em Marte que está aberta para imigração. Aqui na Terra nossas cidades estão repletas de fazendas urbanas gerenciadas por inteligências artificiais e controladas por robôs, que produzem 500% a mais do que suas similares do campo. Hoje podemos comer substitutos vegetais que copiam perfeitamente a aparência e o sabor de proteínas animais, além da opção de comer carnes produzidas em impressoras 3D dentro de laboratórios industriais e com aparência, textura e sabor perfeitos. Tudo isso usando uma fração dos recursos – terra, água, fertilizantes, mão-de-obra – utilizados nos métodos tradicionais de produção. Ah, e nada de pesticidas e antibióticos!

O mais interessante é que todos os sinais para essa realidade em que vivo em 2031 já existiam em 2021! O problema é que estávamos muito preocupados com o turbilhão que vivíamos para prestar atenção neles… Existe uma frase atribuída a Lênin que é perfeita para descrever os nossos tempos: “Existem décadas em que nada acontece e existem semanas em que décadas acontecem.” 2020 marcou o começo do que chamamos de “A Década da Aceleração”, onde o ciclo de transformações sociais, de adoção de novas tecnologias e mudança de paradigmas ganhou uma velocidade sem paralelo na história humana. O mundo de 2031 está longe de ser perfeito. A pobreza ainda existe, a desigualdade continua enorme, os desafios continuam imensos, mas é uma época extraordinária para se viver. E tudo começa aí, com vocês.

Eu tinha muito mais para te contar (não falei sobre os super computadores quânticos, revoluções na medicina, transformações no mundo financeiro, mudanças geopolíticas e econômicas e muito mais) mas acho que vou deixar um pouco para a sua imaginação. E vocês vão precisar muito dela para se prepararem para o que está por vir… Os sinais estão aí, bem na sua frente.

Nos vemos em 10 anos. Aí vocês me contam como foi, combinado?

Gui Rangel, 18 de janeiro de 2031

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